18 de março de 2012

Artigo - o crack que ninguém queria ver


Ainda não há nenhum remédio que cure a dependência da cocaína. E cada vez se usa mais o crack, o substrato da droga, portanto mais fatal que ela. Essa é uma das tristes conclusões que trago das aulas que assisti no início deste mês na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ano após ano, busco a reciclagem no curso de Educação Médica Continuada da Universidade, o que me confere autorização da Associação Médica Americana para continuar atuando como especialista pós-graduado em dependência química.
 
Isso tem explicação em uma doença social. O crack deve ser visto como um produto qualquer dentro do sistema capitalista. Como uma solução mágica, ele vem revestido da idéia de felicidade imediata, satisfação instantânea, a preço muito baixo, já que cada pedra pode sair a R$ 1,00. Além disso, há uma forte propaganda boca a boca, enaltecendo o uso de drogas como sendo ‘uma boa’.  Penso que a propaganda favorável aumenta às custas dos que se calam. O problema é que a grande maioria não diz aquilo que pensa. Essa pouca manifestação em geral é por temor de represália de violência, já que a venda do produto tóxico é realizada em ambientes sujeitos à violência, mas também pode ser por medo social de ser rejeitado por não estar de acordo com a conduta geral. Chegamos ao ponto absurdo em que um veneno extraordinariamente nocivo como o crack  é usado nas ruas, por crianças, e fingimos que não estamos vendo.

E o pior: quando o governo toma a atitude de tratar destes menores, começa a receber críticas.  Defendo a internação compulsória de menores proposta pelo Secretário Municipal de Assistência Social do Rio, Rodrigo Bethlem, que conta com minha assistência sempre que precisar. Conter involuntariamente uma criança que esteja se drogando é atitude humana, amparada na lei e tem o apoio do juizado de menores. É preciso considerar que nem sempre a pessoa que quebra um braço quer ser atendida pela ambulância: muitas vezes porque não conseguem avaliar adequadamente suas necessidades. A questão já foi até debatida por nós na Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados, em Brasília, e o projeto do combate ao crack no Rio - mesmo imperfeito por ser uma espécie de cobaia - está sendo imitado em outros estados.

Vamos lembrar que crack  é uma droga que entra muito rapidamente na circulação sanguínea, enfraquecendo o organismo e predispondo-o a doenças infecciosas e à morte. Causa doenças pulmonares graves, porque o usuário respira veneno, a escória da cocaína. Quem se droga, se descuida da alimentação, ingerindo menos proteína e fabricando menos anticorpos. Também não se importa com a higiene, permitindo a entrada de micróbios agressores no organismo. O crack cria dependência em menos de dez vezes de uso. Sua ação cerebral grave altera a condução do pensamento, levando a transtornos mentais e comportamentais sérios, com aumento significativo da agressividade.

Minha experiência clínica me permite afirmar que até cinco anos atrás eram pouco freqüentes as internações pro crack no país. Mas agora, é raríssimo encontrar alguém internado para tratar dependência química que não tenha usado crack. Com isto, o tempo das internações também mudou. Se antes, precisávamos de 60 dias de internação para casos graves de dependência de cocaína, hoje são necessários seis meses para estancar a compulsividade que toma conta do usuário de crack, com equipe de médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, professores de Educação Física, nutricionistas... E depois da alta, o paciente depende de acompanhamento 24h e freqüência aos grupos de Narcóticos Anônimos, o recurso gratuito de manutenção da abstinência, para não facilitar a temida recaída.

Há muito tempo, ofereço um espaço gratuito para tratamento ambulatorial de dependentes químicos na Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, onde também formo conselheiros. Este ano, o curso gratuito conta com 160 alunos. Serão eles que, em 2013, como todos os anos, vão se organizar para colocar na rua a banda Alegria Sem Ressaca, que faz prevenção à dependência química, desfilando pela orla de Copacabana no domingo anterior ao Carnaval.  Será o décimo desfile da banda, que tem a atriz Luiza Tomé, familiar de dependente químico, como madrinha.

*Jorge Jaber é médico, especialista em dependência química pela Um de Harvard, diretor científico da Associação Brasileira de Alcoolismo e Outras Drogas (ABRAD), e assessor da presidência Associação Brasileiro de Psiquiatria, para assuntos ligados à dependência química (ABP).






POSTADO POR FOCO PB/JORNAL BRASIL.

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