15 de dezembro de 2011

DENUNCIA NO FUTEBOL PARAIBANO:Clubes da PB limitam o número de sócios e controlam colégios eleitorais.

Algo está errado no futebol da Paraíba. Mesmo os clubes com grandes torcidas quase não têm sócios. Entenda o que leva os cartolas a fazerem isto.


Se todos os 10 clubes paraibanos que vão participar da 1ª divisão do Campeonato Paraibano de 2012 reunisse seus sócios adimplentes e aptos a votar nas próximas eleições internas em um mesmo estádio, o grupo não lotaria nem mesmo o Estádio Mangabeirão (do Auto Esporte), que tem capacidade para 800 pessoas e está entre os menores estádios da Paraíba.

Até mesmo clubes tradicionais e de grandes torcidas, como Botafogo-PB, Treze e Campinense ou não possuem ou possuem quadro de sócios bastante modestos, bem diferentes do tamanho de suas respectivas torcidas. O curioso é que em alguns casos são as próprias diretorias que não têm interesse em aumentar o número de “associados patrimoniais”e consequentemente seu colégio eleitoral.
Até times pequenos como o Flamengo Paraibano, que funciona como clube-empresa e tem em sua diretoria apenas seis integrantes, não demonstra interesse em montar um quadro de sócios. Neste aspecto, pequenos e grandes lançam os mesmos tipos de campanhas para angariar os chamados sócios-torcedores, que recebem desconto na compra de ingressos, têm o direito de participar de promoções, mas não são chamados para participar das decisões do clube e não têm direito a voto.
Treze tem a maior torcida (Foto: Phelipe Caldas)     O Treze tem a maior torcida da Paraíba, mas apenas 180 sócios adimplentes com direito a voto
(Foto: Phelipe Caldas)
Dentre os chamados clubes grandes, o caso mais desesperador é o do Botafogo. O clube tinha aproximadamente 180 sócios adimplentes, mas que simplesmente deixaram de contribuir com o clube desde a última crise interna que culminou com a renúncia coletiva da então diretoria executiva.
O clube promete procurar novamente estes sócios, para que eles voltem a contribuir, mas pelo menos a princípio não existe um projeto para ampliar este número.
botafogo-pb, eleição, diretoria (Foto: Larissa Keren)
Eleições no Botafogo-PB são sempre por
aclamação (Foto: Larissa Keren)
- O avião caiu e a caixa preta ainda está sendo aberta – justificou o vice-presidente Ricardo Prado, ponderando que apenas projetos para resgatar o “sócio-torcedor” estão sendo pensados.
Os grandes de Campina Grande, Treze e Campinense, vivem momentos relativamente mais organizados do que o rival pessoense, mas mesmo assim não pensam em ampliar a relação de sócios. Na última eleição da Raposa, por exemplo, realizada menos de um mês atrás, apenas 170 sócios tinham direito a voto (no Auto Esporte, que também realizou eleições recentemente, o número foi ainda menor: 39).
O presidente do Campinense, William Simões, é mais um que se empolga com a figura do sócio-torcedor e, igualmente aos demais, praticamente descarta a possibilidade de se aumentar o número de sócios votantes.
- Vamos massificar uma campanha para aumentar o nosso número de sócios-torcedores, e estes terão acesso a um projeto mais audacioso, que prevê descontos nos jogos, mas também em redes de farmácias e em casas de shows – comemora o presidente reeleito.
Mas rapidamente avisa que todo este projeto não deve mexer no quadro de sócios. Ele alega que para isto o Conselho Deliberativo precisaria aprovar uma mudança no estatuto, mas que ele “duvida muito” que aconteça.
Apenas uma assembleia geral poderia dar direito a eles (sócios patrimoniais) votarem nas eleições internas do Campinense. Mas acho pouco provável que isto aconteça"
William Simões
- Este projeto não mexe no nosso quadro de sócios patrimoniais. Apenas uma assembleia geral poderia dar direito a eles votarem nas eleições internas do Campinense. Mas acho pouco provável que isto aconteça – confessa, dizendo em contrapartida que pretende em 2012 anistiar as dívidas dos sócios antigos inadimplentes para que estes retornem ao cotidiano rubro-negro.
Voz destoante, mas sem ação efetiva por enquanto
Na verdade, o único dos times grandes que admite a possibilidade de aumentar o número de sócios patrimoniais é o Treze. Atualmente com apenas 180 sócios adimplentes e aptos a votar, o Galo é mais um que tem um colégio eleitoral pouco representativo.
E apesar de o Treze ser outro clube paraibano a ter iniciado recentemente um “programa de sócios”, mas uma vez a proposta não prevê o direito a voto. O clube quer ampliar para 8 mil o número de sócios torcedores e mais uma vez excluí-los da política interna.
A diferença mínima no Galo é que o presidente Fábio Azevedo pelo menos no discurso promete mudar esta realidade em breve.
- Temos muita gente querendo participar do cotidiano do clube e quem tiver interesse será bem vindo. Precisamos de renovação e esta é uma forma de trazer mais o torcedor para dentro do clube. Novas ideias precisam ter espaço e convenhamos que 180 sócios é muito pouco para um time como o Treze. Garanto que vamos fazer uma campanha neste sentido ainda na minha gestão – declarou.
Zerados
Na lista dos times que não possuem nem mesmo quadro de sócios estão alguns times que de certa forma têm expressividade no cenário estadual. Casos de Sousa e de Nacional de Patos, que recentemente foram campeões paraibanos, mas que simplesmente não têm sócios.
ranieri fonseca (Foto: Renata Vasconcellos)
Virou moda: o Flamengo Paraibano não tem nem
mesmo torcida, mas seu presidente Ranieri
quer reunir mil sócios-torcedores, mais uma vez
sem direito a voto (Foto: Renata Vasconcellos)
Os novatos Flamengo Paraibano e Paraíba e o atual vice-campeão paraibano, o CSP, são outros cujos sócios se resumem aos diretores. Geridos como clubes-empresas, são associações em que os presidentes na verdade são praticamente donos do clube.
Ranieri Fonseca, do Flamengo, ainda assim pretende elevar para mil o número de sócios-torcedores do último time fundado no Estado. Mas ao falar de voto, ele é enfático:
- São apenas os seis atuais diretores mesmo – revela sem rodeios, deixando claro que não pretende mudar neste ponto.
Já Josivaldo Alves, do CSP, e Tiko Miudezas, do Paraíba, têm outras justificativas para não ir atrás de sócios com direito a voto. O primeiro diz que primeiro tem que “conquistar uma torcida”, enquanto que o segundo destaca que primeiro precisa “conseguir 11 jogadores para entrar em campo no Paraibano 2012”.
ítalo fittipaldi, cientista político (Foto: Felipe Gesteira / Jornal da Paraíba)
Cientista político 'revela' o que está por trás destas
manobras que impedem os quadros de sócios
crescerem nos clubes de futebol da Paraíba
(Foto: Felipe Gesteira / Jornal da Paraíba)
Cientista político 'desmascara' cartolas
O GLOBOESPORTE.COM/PB entrevistou o cientista político Ítalo Fittipaldi sobre este “fenômeno” que se repete em todos os clubes de ponta do futebol paraibano. E a conclusão dele, sem rodeios, é a de que os dirigentes de clubes profissionais têm em geral “interesses financeiros escusos” que justificam o controle mais rígido dos respectivos colégios eleitorais.
- Os clubes movimentam muito dinheiro. Recebem financiamentos de Prefeituras e Governos, além de programas estatais de patrocínio que interessam e muito a estes dirigentes, que não querem correr o risco de perder o domínio por estas verbas. Quanto maior o colégio eleitoral mais difícil é manter o monopólio sobre elas – declara.
(Os cartolas) colocam o bloco na rua para justificar os investimentos estatais que fazem nele. Mas eles não têm compromisso com nada e em regra querem apenas colocar a mão no dinheiro"
Ítalo Fittipaldi
Fittipaldi explica que muitas vezes estes cartolas não têm o menor interesse no desenvolvimento do futebol, nem têm paixão pelo clube que representam, mas estão de olho apenas no dinheiro.
- É exatamente a mesma coisa que acontece com os dirigentes de agremiações carnavalescas. Colocam o bloco na rua apenas para justificar os investimentos estatais que fazem nele. Mas eles não têm compromisso com nada e em regra querem apenas colocar a mão no dinheiro.
O cientista político destaca também que na maioria das vezes os gastos dos clubes com dinheiro público não passam nem mesmo por auditorias, de forma que os dirigentes o usa de forma livre e impune.
- São pessoas que se aproveitam da paixão do torcedor. Tenha certeza de que um colégio eleitoral reduzido não é à toa. E depois, a figura do sócio-torcedor é vergonhosa. Eles colaboram financeiramente, mas não têm poder de decisão. Este tipo de coisa está fadada ao fracasso – conclui.





POSTADO POR MARTINS/G1/
 
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