23 de outubro de 2011

Jogo do bicho gera renda para milhares de famílias.

O jogo do bicho, apesar de ilegal, funciona normalmente na Paraíba, com até cinco sorteios realizados por dia. A estrutura disponibilizada pelas bancas e o total de pessoas envolvidas são desconhecidos, segundo os órgãos do governo. Mas nas ruas dos municípios paraibanos, a tradição de apostar nos 25 bichos gera renda para milhares de “bicheiros”. Mesmo irregular, a prática inovou e as apostas já são feitas eletronicamente.
O superintendente da Loteria do Estado (Lotep), Fábio Carneiro, afirmou que o órgão não tem mais vínculo com as bancas de jogo e que todas funcionam na clandestinidade. Ele disse que a proibição irá causar prejuízos se as bancas forem fechadas, mas afirmou que o órgão cumpriu as determinações da Justiça e cancelou o credenciamento das empresas que tinham autorização para atuar nos jogos oficiais do governo, mas que também comercializavam o jogo de azar.
Muitos paraibanos dizem não entender porque algo que faz parte da infância, e até da vida dos pais, é ilegal. O feirante Vicente Luis de França faz apostas diariamente onde trabalha no Mercado Central de João Pessoa. Mas o contato dele com o jogo começou em Sapé, onde percorria a cidade comercializando as apostas. Foi com as vendas que partiu a vontade também de jogar.
“Jogo quando estou só, jogo quando estou no meio dos amigos e, quando não quero mais jogar, passa essas moças bonitas oferecendo, aí não resisto e jogo de novo”, disse o feirante. A declaração dele reflete o pensamento de muitos paraibanos que são viciados no jogo do bicho, nunca conseguiram parar suas apostas e agora estão apreensivos com o fechamento das bancas, na Paraíba.
A venda das apostas é uma realidade em todas as cidades do Estado e não apenas nas tradicionais bancas, mas também, em “bicheiros” ambulantes que circulam em feiras, no comércio e até indo de porta em porta dos viciados no jogo. No Sertão, a jogatina é encarada com tanta importância que o vício de apostar na sorte usando a crença nos bichos é praticado por várias gerações. O aposentado Luiz Rodrigues de Brito, de 70 anos, é exemplo disso. Ele disse que aprendeu a jogar com o pai desde muito jovem e que a paixão o tornou ‘bicheiro’.
“Meu pai foi o homem que trouxe o jogo do bicho pra Patos e eu aprendi com ele a jogar e passar o ‘bicho’. Quando jovem, eu me dividia entre o meu trabalho nos Correios e a banca, e depois que me aposentei passei a me dedicar só ao jogo do bicho. Ao todo, já tenho 50 anos de apostador e também de bicheiro. Por dia, eu faço uma média de 30 jogos. Eu sou um dos mais antigos bicheiros de Patos e isso é muito importante para mim, não só pela renda que eu adquiro, mas também pela questão cultural, que é uma tradição deixada por meu pai”, contou o aposentado.

Prática ilegal
A prática ilegal do ‘jogo do bicho’ também acontece em municípios do interior paraibano, sobretudo, do Sertão do Estado, onde é registrado o maior número de bancas de apostas, mesmo com as determinações do Tribunal Regional Federal (TRF) proibindo a prática. Com mais de 15 bancas e mais de 5 mil pontos espalhados, a jogatina acontece principalmente nas maiores cidades da região, como Patos, Sousa e Cajazeiras e emprega uma média de 7 mil pessoas, incluindo cambistas que se deslocam para as outras 86 cidades sertanejas. Os ‘bicheiros’, fazem do jogo ilegal, o principal meio de sobrevivência e conseguem 20% de todo o apurado, chegando a receber até R$ 2,5 mil por mês.
Os proprietários dos estabelecimentos alegam que atuam com o apoio da Loteria da Paraíba (Lotep), através da concessão de alvarás, chamados de ‘credenciamento’. Além disso, eles afirmam que pagam uma espécie de imposto à Lotep, no valor de R$ 1.060 ao mês. A Lotep nega que tenha ligação com as bancas de jogo do bicho e acredita que os responsáveis estejam usando o nome da Loteria para adquirir credibilidade e praticar o crime.
Mesmo na ilegalidade e considerado uma contravenção penal, o jogo do bicho no Sertão é praticado por jovens, adultos, mas em maioria por idosos, que chegam a apostar parte do salário da aposentadoria. Viciado no jogo, o agricultor João Batista de Lima só veio ganhar uma aposta após 38 anos de tentativas. Ele disse que apostou R$ 5 reais na milhar 1877, (peru) e consegui R$ 20 mil, mas até hoje não recebeu o prêmio porque a banca não quis realizar o pagamento.
“Eu tenho todo os papeis da aposta e quando eu ganhei fui à banca e eles logo disseram que iam me pagar, mas depois disseram que não pagariam mais o valor. Eu coloquei um advogado, mas o juiz disse que o caso era improcedente porque o jogo ilegal. Ainda hoje eu espero receber meu prêmio, mas até ameaças de morte eu já recebi por conta disso. Ainda hoje eu aposto na sorte para mudar de vida”, desabafou o agricultor.
Todas as bancas de Patos realizam quatro sorteios diários. “Nós temos três extrações que acontecem através dos números sorteados pela Lotep em João Pessoa e o resultado vem direto de lá para gente via fax. Além dessas três extrações, ainda fazemos uma extração local, que é às 10h. Tem apostar que joga em todas as seções. São viciados demais”, disse a bicheira Priscila Sousa, da banca Talismã da Sorte.
O delegado titular da Polícia Federal em Patos, Paulo Henrique Ferraz Lima, aponta que o combate ao jogo do bicho seja difícil porque o crime teria se tornado ao longo dos anos, uma pratica cultural, que faz parte da tradição de homens e mulheres que apostam na sorte para mudar de vida. “Como a pirataria, o jogo do bicho se enraizou na sociedade e faz parte da vida cultural dela. Por isso também é tão complicado combater, porque as pessoas acreditam nisso, mesmo sabendo que é ilegal e que é vicioso”, explica o delegado.

Três bancas em Patos
Em Patos, existem três bancas (Unibanca, Para Você e Talismã da Sorte), que juntas empregam cerca de 300 cambistas somente na zona urbana da cidade. Por dia, as três bancas conseguem uma média de 3 mil apostas, com valores a partir de R$ 0,50. “O povo de Patos não perde a esperança e joga muito. Todos os dias eles lotam as bancas em busca de fazer as apostas, motivados por palpites, como sonho com números, placas de carros e outras crenças. Tem gente que aposta muito dinheiro, com por exemplo um aposentado da zona rural que todo dia aposta R$ 50 e não tem medo de ficar sem nada”, disse a bicheira Priscila de Sousa.
O dono da banca Para Você, Enemarques Marques Dantas, disse que apesar de ser ilegal, o jogo do bicho é importante para cidade e que acredita que a prática não irá acabar. “É uma coisa que o povo gosta, uma diversão pra muitos e a chance de ‘tirar uma sorte’ e mudar de vida motiva eles. Por mais que seja um jogo ilegal, nós temos credenciamento da Lotep para funcionar e por isso, não tenho nada para esconder. Eu emprego mais de 45 pessoas, e isso significa que são 45 famílias que sobrevivem disso. Por dia, mais de 500 apostadores jogam na minha banca e sempre tem gente acertando”, relatou o bicheiro.

Lotep: jogo de azar é caso de polícia
O jogo de azar não possui mais vínculo com o Estado e, por ser considerado uma contravenção penal, deve ser reprimido pela polícia. Foi o que afirmou o superintendente da Lotep, Fábio Carneiro. Segundo ele, desde que o Tribunal Regional Federal da 5ª Região em Recife (TRF), determinou que fossem cancelados os credenciamentos existentes, a ligação com o jogo foi encerrada.
No entanto, as bancas de jogo da Paraíba utilizam os números dos sorteios dos jogos oficiais do Estado e da União para sua própria comercialização. Para o superintendente, não tem como proibir que os números sejam utilizados para o jogo de azar e que essa é uma prática que ocorre em todo país.
“Em março, os 116 que tinha o credenciamento foram notificados. Fizemos uma fiscalização para verificar quais ainda estavam funcionando e depois fizemos operações com a polícia civil para fechar os que insistiram. Mas a maioria saiu apenas após a notificação. Todos estão na clandestinidade e agora está nas mãos da polícia”, afirmou. Segundo ele, as medidas foram tomadas logo após a decisão judicial.
Fábio Carneiro considera que é difícil coibir uma prática tão tradicional no Estado. Segundo ele, o trabalho também se torna difícil por conta da  pequena punição que é prevista para a contravenção. “A polícia vai na banca, fecha leva o dono para a delegacia, ele assina um termo e está liberado”, afirmou. No entanto, ele afirma que o perfil das pessoas envolvidas no jogo na Paraíba é diferente do visto no Rio de Janeiro, por exemplo, onde a prática está vinculada à criminalidade.
Em relação ao pagamento de tributos à Lotep, o superintendente negou a informação dos banqueiros e disse que a Lotep nunca recebeu dinheiro deles para permitir o funcionamento das bancas. “Isso não é verdade. Eles têm que dizer alguma coisa para se defender, mas a verdade é que a Lotep não apóia jogo de bicho, porque sabe que é ilegal, que é uma contravenção. Temos denúncia de que essas bancas usam os resultados dos jogos da Lotep e até de loterias federais para simular os jogos ilegais que fazem e isso é um crime. Eles não podem continuar usando o nome da Lotep, porque não temos nada com eles. Se fazem isso, é porque querem adquirir credibilidade”, disse.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Segurança para saber se é feito algum trabalho para combater o jogo do bicho no Estado, mas não obteve êxito. A assessoria de imprensa informou que apenas os delegados designados para o caso poderiam explicar o andamento. No entanto, o delegado responsável pelo caso na Capital, Antônio Farias, não foi encontrado e o de Campina Grande, Francisco de Assis, informou que já deixou as investigações há 90 dias e não sabe se elas prosseguiram. A reportagem também entrou em contato com o Ministério Público Federal na Paraíba, entre a terça e a sexta-feira, mas não obteve retorno.

Bicheiros dizem que jogo é único sustento
Há 40 anos, Walter Pessoa Lins se sustenta vendendo apostas no jogo do bicho. Segundo ele, no início era apenas uma atividade para complementar a renda, mas depois o sustento da família passou a ser feito, exclusivamente, com os 20% do total de apostas feitas na banca.
“Já fui comerciário, trabalhei como frentista de posto de gasolina, e depois fiquei só na banca. Muita gente que trabalha com jogo, depende só disso mesmo. São muitos pais de família que precisam do jogo para sustentar a casa. Eu mesmo tenho mulher, filho e neto que precisam desse meu trabalho”, contou.
Segundo ele, durante muitos anos ele nunca soube que a prática não era certa e hoje está apreensivo quanto à proibição e possibilidade de fechamento das bancas. Aos 71 anos, ele diz que não sabe mais que atividade faria para manter a renda. “Hoje eu tenho a comissão em cima do que ganho aqui sem fazer nada errado. Ninguém é obrigado a fazer aposta nenhuma e joga quanto pode. Eu recebo aposta até de R$ 0,50, mas vai juntando e no fim do dia pode chegar a R$ 200 o apurado”, relatou.
A aposentada Esmeralda Augusta da Silva começou a comercializar o jogo aos 17 anos e disse que tem orgulho de ter sustentado cinco filhos e agora ainda cuida de cinco netos. “Somos trabalhadores de bem e tenho orgulho de ter me sustentado desde cedo com o jogo. Dois filhos meus também seguiram o ramo. Para passar o jogo não é preciso muito estudo, pode ser um rapaz de 20 ou um velho de 80 que consegue sobreviver com isso”, afirmou.
Já o comerciante Luiz Barboza de Souza abriu um bar há 12 anos no Centro de João Pessoa e montou uma banca no próprio estabelecimento para complementar a renda. Ele afirmou que não vê motivos para que o jogo seja considerado irregular e, por isso,é contra a proibição do jogo.  “Não dependo só disso e não é tudo para mim. Tenho mais porque gosto e para complementar a renda. Mas é uma renda que se tirar tem prejuízo porque chega a apurar uns R$ 500 por semana. Quem depende só disso vai ser ainda mais complicado”, afirmou o comerciante.
Ainda solteira e sem filhos, Ednalva Silva trabalha em uma banca há sete anos na Capital e tira seu sustento com o trabalho. “A comissão que ganho é suficiente para mim. Num dia fraco apuro R$ 250, mas às vezes junto até uns R$ 400. Varia muito de um dia para o outro e aqui vende bem porque é um ponto antigo. Estou aqui há sete anos, mas há muitos anos tinha um velhinho que trabalhava aqui e o local ficou conhecido”, contou.

Linha do tempo do jogo do bicho na Paraíba
- A Loteria da Paraíba foi criada em abril de 1955, por decreto do governador José Américo de Almeida.
- Em dezembro do ano seguinte, o Governo Federal ratificou a criação da loteria por mais um decreto, desta vez do presidente Juscelino Kubitschek.
- Já em 1967 o jogo obteve amparo do governo do Estado, com regularização através de licenças expedidas pela Lotep.
- Sem autorização formal e também sem punição, a atividade foi tolerada por décadas no Estado, indo de encontro à Lei de Contravenções Penais de 1941, anterior a autorização oficial do governo.
- Após denúncias do MPF, em janeiro deste ano, o Tribunal Regional Federal se pronunciou e decretou a ilegalidade da atividade. Dois meses depois, uma portaria do Tribunal de Justiça determinou que a Lotep fechasse pontos e bancas do jogo.
- Através da portaria da delegacia geral de Polícia Civil, publicada no Diário Oficial do Estado no dia 27 de maio, dois delegados foram designados para atuar na interdição de estabelecimentos que comercializam jogo do bicho e fecharam alguns deles.
- Este mês, o TRF volta a determinar a interdição dos estabelecimentos, mas desta vez pedindo que a Polícia Federal entre na ação. A determinação atende pedido do MPF que alega que a polícia do Estado não cumpriu a decisão de fechar os estabelecimentos.

Cajazeiras
Em Cajazeiras, existem quatro bancas, que juntas, contam com cerca de 200 pontos espalhados pela cidade. Todos os proprietários alegam possuir o ‘credenciamento’, cedido pela Lotep, para que possam funcionar e que ainda pagam para se manter em atividade. “Eu tenho a banca há mais de dois anos e tenho o credenciamento da Lotep para funcionar. Pago todos os meses R$ 1.060 para Lotep também meus cambistas conseguem mais de dois salários mínimos ao mês por conta da produção deles”, explicou o proprietário da banca Ouro Verde, Jaime Firminio.
Mesmo sabendo dos perigos que correm ao apostar em jogos ilegais, muitos sertanejos preferem ignorar a situação e investir na ‘sorte’. O técnico em eletrificações João Rodrigues de Lima é um dos maiores apostadores de Cajazeiras e em mais de 30 anos, só consegui ganhar uma vez, um premio de R$ 825. Ele se considera um jogador viciado e não consegue controlar o desejo de apostar em um dos 25 bichos da tabela.
“Eu jogo muito, demais, jogo todo dia, dinheiro que adquiro com meu salário e não me arrependo não. Sei que é complicado, mas isso é uma diversão também. Já me acostumei a fazer as apostas. Conheço muita gente que joga porque não tem empregos, não tem salários. No meu caso é diferente, eu tenho emprego, salário todo mês, mas mesmo assim, eu não resisto ao jogo do bicho e jogo cerca de R$ 120 ao mês”, desabafou.

Bancas espalhadas em Sousa
Já em Sousa são quatro bancas espalhadas pela cidade e que juntam empregam mais de 250 bicheiros. Além disso, os donos das bancas também investem em corridas extras e também oferecem prêmios, como moto como forma de atrair apostadores. “Assim como nos outros municípios do Sertão, o povo de Sousa acredita muito no jogo do Bicho e joga muito. A nossa banca já pagou a uma só pessoa seis prêmios, inclusive um de R$ 120 mil, que mudou a vida dele. Funcionamos com credenciamento dado pela Lotep, assim como todas as outras e pagam o valor que ao mês que é mais de R$ 1 mil. Até ano passado nos pagávamos R$ 500 reais a Lotep esse ano aumentou 100% e nós passamos a pagar mais de mil”, relatou o bicheiro Roberto Santos, da banca Loteria da Sorte.



POSTADO POR GENILDO ALVES.

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