25 de abril de 2011

É PARA RIR De fantasmas à cagada de índio; confira fatos pitorescos da AL Fatos foram testemunhados por funcionários e deputados

Nos últimos 30 anos, a Assembleia Legislativa da Paraíba foi palco de inúmeros acontecimentos pitorescos testemunhados por funcionários e deputados. Os fatos vão de supostas aparições de fantasmas a um inesperado ataque de dor de barriga que resultou num amontoado de fezes- deixado por um índio, no plenário da Casa.

Também ficou na memória dos funcionários o dia em que dois deputados foram às vias de fato- com direito a tiro de revólver e mordida no nariz- em plena sessão. E os gritos de “ai, ai, ai...” que partiam de dentro do sanitário dos parlamentares, oportunidade em que um deputado, que também era dentista, ajudava um fotógrafo a se livrar dos dentes podres.

A Assembleia também foi palco da convivência “pacífica” e tensa entre deputados inimigos de morte, como os coronéis Luiz de Barros e José Lira; Levi Olímpio e Chico Pereira (pai dos ex-deputados Aércio e Adauto Pereira), todos já falecidos.

Os testemunhos desses fatos pitorescos e até violentos são de funcionários que trabalham até hoje na assessoria do Plenário, como Jerônimo Ribeiro (atual diretor do Departamento do Plenário), Magaly Maia, Paulo Rogério (conhecido como Paulinho) e Pedro Ronaldo Gadelha Abrantes, filho do ex-deputado Romeu Abrantes.

Num determinado mês de abril, índios potiguara, vindos de Baía da Traição, ocuparam a o plenário da Assembleia para uma sessão especial em homenagem do Dia do Índio (21 de abril). A sessão debateria os problemas existentes nas aldeias de Rio Tinto e Baía da Traição. De repente, um índio sentiu uma dor de barriga e resolveu fazer o serviço lá mesmo, no plenário.

Então, conforme lembram Jerônimo e Ronaldo, os outros índios, solidários, improvisaram a dança do Toré. Fizeram um círculo para esconder o potiguara com dor de barriga. E iniciaram a dança. Passaram quase 20 minutos dançando, tempo suficiente para o serviço ser concluído.

Em seguida, saíram em uma fila e deixaram para trás o amontoado de fezes, cujo odor incensou o plenário e acabou a sessão. O carpete teve que ser removido pelo pessoal da limpeza.

“Paulinho viu a movimentação dos índios e pensou que, realmente, eles estavam apresentando a dança do Toré. Quando desfizeram o círculo, nos deparamos com um imenso tolete”, disse Ronaldo Abrantes.

Chico Pereira dormia no próprio gabinete

Ronaldo Abrantes contou, também, que Gilson, funcionário da segurança, estava de plantão noturno, quando ouviu alguém bater numa porta de vidro do plenário. “De longe, ele viu uma pessoa e se aproximou para abrir a porta. Quando chegou perto, a pessoa tinha desaparecido”, disse Ronaldo, acrescentando que Gilson ficou com medo e atribuiu o fato a um suposto fantasma.

E a suspeita recaiu sobre o deputado Chico Pereira. O deputado tinha uma bengala e sempre dormia no seu gabinete, além de cochilar no plenário, durante as sessões. Quando tinha insônia, de madrugada, vagava pelo corredor com sua bengala na mão. “Depois que ele morreu, Gilson sempre ouvia o barulho (toc, toc, toc...) da bengala de Chico Pereira no corredor. Por isso, acreditou que a pessoa que bateu à porta de vidro do plenário, teria sido o ex-deputado.

O índio

O que mais marcou os funcionários do plenário da Assembleia, nas últimas três décadas, foi a dança do Toré que deixou para trás um amontoado de cocô de um índio que teve dor de barriga momentos antes do início de uma sessão em homenagem ao Dia do Índio. Os funcionários não lembram a data exata, mas afirmam que o fato ocorreu na década de 80. O carpete teve que ser retirado pelo pessoal da limpeza e a sessão foi inviabilizada.

O fantasma

Os funcionários da Assembleia relatam pelo menos três episódios atribuídos a supostos fantasmas, principalmente depois que Chico Pereira morreu. O toc, toc, toc da bengala que ele usava teria sido ouvido por servidores da manutenção e da segurança. Num dos episódios, Chico Pereira ainda estava vivo. O vigilante não o percebeu no escuro e viu apenas o cigarro aceso. Quase morre do coração jurando ter visto um espírito fumante. Tudo foi esclarecido depois.

O dentista

Djalma Gois foi fotografo do Jornal O Norte durante muitos anos. Cobria as sessões na Assembleia Legislativa. Tinha muitos dentes careados, que necessitavam ser extraídos. Mas não tinha coragem, até que o deputado Everaldo Agra o encoragou a tirar os dentes podres. O episódio chamou a atenção dos demais deputados, após os gritos de dor que ecoavam do sanitário, onde Agra arrancou os dentes do fotógrafo sem anestesia.

Os inimigos

Os deputados coronéis Luiz de Barros e José Lira- ambos representantes do município de Teixeira na Assembleia Legislativa da Paraíba- eram inimigos de morte. Os dois andavam armados, mas nunca foram às vias de fato. Só frequentavam o mesmo teto quando estavam no plenário. Se odiavam, mas respeitavam. Outros inimigos ferrenhos eram os deputados Levi Olímpio e Chico Pereira. E Levi Olímpio e Aércio Pereira, filho de Chico Pereira.

Pedido de alicate irritou Estrela

Na época em que João Estrela (ex-prefeito de Sousa) era deputado, Ronaldo Abrantes, filho do ex-deputado Romeu Abrantes (também da cidade de Sousa), era seu chefe de gabinete.

“Certo dia, o deputado João Estrela, que sempre foi um homem muito gentil e educado, estava com o cão no couro, como se diz no interior, e uma mulher chegou para irritá-lo ainda mais.

“A mulher entrou no gabinete e ficou olhando para ele, sem nada dizer. Mesmo irritado, João foi educado e disse: pois não, senhora, o que deseja?”, lembrou Ronaldo Abrantes. A mulher, segundo ele, calada estava, calada ficou. E o deputado disse: “Fale mulher”. Ela abriu a boca e foi direto ao assunto: “Eu quero um alicate de unha”. João Estrela: “Desculpe senhora, mas não damos esse tipo de coisa”.

Ela retrucou: “O que vocês fazem, além de não darem esse tipo de coisa?”. João Estrela, que já estava irritado, pegou a mulher pelo braço e a colocou para fora do gabinete.

Outros fatos

Contam os funcionários da Assembleia que muitos outros fatos curiosos marcaram e continuam marcando os bastidores da Assembleia Legislativa, tudo registrado nos anais da Casa. Tais fatos vão de manobras para a aprovação de projetos de interesse do Governo de forma açodada, como ocorreu um dia antes da cassação do governador Cássio Cunha Lima pelo Tribunal Superior Eleitoral, em fevereiro de 2009.

Sabendo que o governador seria cassado, seus aliados realizaram 17 sessões extraordinárias em apenas uma manhã e aprovaram tudo o que quiseram, da forma mais autoritária possível. Tudo acompanhado pela imprensa e por telespectadores da TV Assembleia.

A negativa da Assembleia para processar o ex-governador Ronaldo Cunha Lima foi um escárnio. Ronaldo cometeu uma tentativa de assassinato contra o ex-governador Tarcísio Burity, em 1993, e a Assembleia negou a permissão para ele ser processado.

A tribuna da Assembleia foi usada por deputados para ameaçarem colegas e até jornalistas que nada têm a ver com as disputas entre eles. Mas nem tudo é negativo. Foi a partir de uma denúncia feita na Assembleia Legislativa, pelo deputado Tião Gomes, que a Justiça Eleitoral (estadual e federal) cassou um governador (Cássio Cunha Lima) acusado de corrupção eleitoral.

Esconderijo de Zé Lacerda

Certo dia, o deputado Afrânio Bezerra se desentendeu com o também deputado Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, em plena sessão legislativa. Afrânio puxou um revolver e atirou em Marcus Odilon, que revidou com uma mordida no nariz do adversário.

O fato ocorreu há mais de 20 anos. Os problemas foram superados e hoje não existe inimizade entre os dois.

Mas o curioso envolveu o então deputado José Lacerda Neto. No tumulto, José Lacerda tentou se esconder debaixo de um birô, conforme lembram Jerônimo, Magaly, Paulinho e Ronaldo.

Quando José Lacerda tentou entrar debaixo do birô, o local já estava ocupado por um funcionário da Casa, se tremendo de medo.

Também tremendo de medo, o deputado José Lacerda teria dito: “Saia que esse lugar é meu. Procure outro lugar para se esconder”.

O funcionário teve que obedecer e cedeu o lugar ao deputado, que só deixou o local depois que o tumulto tinha acabado e os dois desafetos tinham saído do plenário.

Deputado tirou dentes de fotógrafo

De acordo com Jerônimo Ribeiro, o ex-deputado Everaldo Agra (pai do também ex-deputado Tota Agra, ambos falecidos) era dentista e sempre andava com suas ferramentas de trabalho. Certo dia, encontrou o fotógrafo Djalma Gois (que trabalhou vários anos no Jornal O Norte), que tinha a boca cheia de dentes podres que precisavam ser extraídos. Everaldo prometeu que um dia, se Gois quisesse, ele extrairia todos os seus dentes.

Dito e feito. Gois entrou no plenário para fotografar a sessão e encontrou Everaldo Agra. Os dois cochicharam e se dirigiram ao sanitário dos deputados, sem ninguém perceber. Momentos depois, a sessão foi interrompida por gritos de “ai, ai, ai” e “calma que to terminando; calma que ta terminando”.

Os deputados interromperam a sessão e se dirigiram ao banheiro para saber o que estava acontecendo. Ao adentrarem ao recinto, encontraram uma cena dantesca (pavorosa). O fotógrafo Gois estava sentado no bojo, com a boca aberta e toda ensangüentada e o deputado com um alicate na mão. Na pia, os dentes arrancados sem anestesia.

Deputado votou dormindo

Contam os funcionários que o deputado Chico Pereira, já idoso, passava o tempo todo cochilando no plenário, durante as sessões. Integrante da bancada do Governo, ele não dava conta do que era votado e aprovado. Mas numa determinada sessão, um projeto importante para o governo só seria aprovado se tivesse o voto de Chico Pereira, que daria a maioria necessária.

Quando presidente da sessão pediu que os deputados que concordassem com determinado projeto ficassem de pé, o parlamentar que estava ao lado de Chico Pereira se levantou e o puxou pelo braço. Mesmo assim, ele não acordou. O presidente disse que o projeto estava aprovado, mesmo sob o protesto da oposição. “Seu Chico votou dormindo”, lembrou Jerônimo.

Seu Chico, como era conhecido o deputado Chico Pereira, quando vinha de Pombal, não se hospedava em hotel e dormia no gabinete. Como costumava passar noites inteiras passeando nos corredores do primeiro andar, com insônia, ale acendia um cigarro após outro.

O setor de segurança tinha contratado um vigilante novato que não conhecia os hábitos do seu Chico. Certo dia, o vigilante chegou atrasado, passou pela chefia e foi direto dar uma geral nas instalações da Assembleia. As luzes estavam todas apagadas.

Ao chegar ao primeiro andar, o vigilante viu, de longe, um cigarro aceso a mais de um 1,70 metro de altura e se aproximando dele. Era o deputado Chico Pereira. O vigilante começou a tremer e disparou para o térreo, tremendo e assombrado. Disse ao chefe que tinha visto uma alma. “E o pior: além de ser uma alma, estava fumando”.

Paletó de toalha de mesa de Judivan

O ex-deputado Judivan Cabral tinha um paletó que mais parecia uma toalha de mesa, toda quadriculada. Os outros deputados brincavam com ele dizendo que o mesmo tinha mandado fazer o paletó com a toalha de mesa de sua casa.

Certo dia, invocado com as provocações dos colegas, Judivan Cabral chegou para um dos assessores da Assembleia e pediu o paletó emprestado. Recebeu o de Renê Costa, que era assessor do deputado José Fernandes de Lima. A troca de paletó ocorreu depois do episódio do tiro no plenário.

Na época, a Mesa Diretora baixou uma resolução proibindo deputados de entrarem armados no plenário. Quando Judivan começou a usar o paletó do assessor de José Fernandes, todo mundo percebeu o revólver de Judivan, um 38 de cano longo. Um repórter perguntou: “Mas deputado, o senhor está armado. E a resolução aprovada pela Mesa?”.

Ele respondeu: “Você acha que eu, desse tamanho (era baixinho), vou vacilar para levar uma mordida no nariz de um homenzarrão como Marcus Odilon? Antes dele arrancar meu nariz, eu meto bala”, teria dito em tom de brincadeira, para justificar a arma que carregava na cintura, mesmo depois da proibição da Mesa Diretora.

Na década de 80, dois coronéis da Polícia Militar eram deputados e representavam a mesma região: Serra do Teixeira. Eram Luiz de Barros e José Lira. Os dois eram inimigos de morte. Ambos andavam armados. “Era fio de 360 com fio de 360. Não podiam se tocar”, disse Jerônimo se referindo aos fios de alta tensão.

Um dia, segundo lembra Jerônimo, os dois se encontraram no elevador da Assembleia. O elevador parou no solo e ia para o subsolo. Zé Lira descia e Luiz de Barros esperava para entrar. Quando avistou o adversário, não entrou. “Eles não se falavam, nem se cumprimentavam, mas se respeitavam”, comentou Jerônimo.

Adelson Barbosa dos Santos do Jornal Correio da Paraíba

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